Ela Sempre Encontrava o Homem Errado? A Psicanálise Revelou Algo Muito Mais Profundo

“O problema nunca foram os homens. O problema era aquilo que ela acreditava merecer.”

Introdução

Ana (nome fictício), 34 anos, chegou ao consultório dizendo que tinha “azar no amor”.

Era bonita, inteligente, independente financeiramente e tinha muitos amigos. Mesmo assim, seus relacionamentos terminavam sempre da mesma forma: abandono, traição, humilhação ou desinteresse.

Ela dizia:

— “Eu só atraio homens que não prestam.”

Nos primeiros encontros, essa parecia ser a explicação.

Mas a análise mostrou uma história muito mais complexa.

Um padrão que se repetia

Ao relembrar seus relacionamentos, uma característica chamou atenção.

Todos os parceiros eram emocionalmente indisponíveis.

Um era casado.

Outro dizia não querer compromisso.

Outro desaparecia durante dias.

Um deles sequer a apresentava aos amigos.

Curiosamente, quando algum homem demonstrava interesse genuíno, Ana perdia completamente a atração.

Ela dizia:

— “Ele é bom demais.”

Ou então:

— “Não sinto química.”

Era como se o amor tranquilo lhe causasse tédio.

A infância que parecia normal

Questionada sobre sua infância, Ana respondeu rapidamente:

— “Foi boa.”

Mas, pouco a pouco, surgiram lembranças importantes.

Seu pai era um homem trabalhador, porém distante.

Passava semanas viajando.

Quando estava em casa, era silencioso.

Raramente elogiava.

Demonstrava carinho comprando presentes, nunca com palavras ou afeto.

Ana fazia desenhos para ele.

Esperava que olhasse.

Ele apenas dizia:

— “Depois eu vejo.”

Esse “depois” quase nunca chegava.

Sem perceber, Ana cresceu tentando conquistar a atenção de alguém emocionalmente distante.

O amor virou conquista

Na vida adulta, esse modelo continuou funcionando.

Ela não se apaixonava pelo homem disponível.

Apaixonava-se pela possibilidade de finalmente ser escolhida por alguém que não a escolhia.

Cada mensagem respondida parecia uma vitória.

Cada demonstração mínima de carinho era sentida como uma enorme recompensa.

Quanto maior a dificuldade, maior parecia o amor.

O sonho

Depois de alguns meses de análise, Ana contou um sonho recorrente.

Ela caminhava por um enorme jardim.

No centro havia uma casa iluminada.

Sempre que tentava entrar, a porta fechava.

Ela batia.

Esperava.

Ninguém respondia.

Então via uma janela aberta.

Corria até ela.

Quando chegava perto, a janela também se fechava.

Acordava angustiada.

O silêncio que falou mais alto

Durante uma sessão, Ana contou sobre um homem que conheceu recentemente.

Educado.

Carinhoso.

Disponível.

Interessado em construir uma relação.

Ela sorriu e disse:

— “Acho que não vai dar certo.”

O analista perguntou apenas:

— “Por quê?”

Ela respondeu quase imediatamente:

— “Porque ele gosta de mim.”

Depois fez silêncio.

Um silêncio longo.

Então começou a chorar.

Pela primeira vez percebeu que confundia amor com esforço.

A interpretação

Na perspectiva psicanalítica, repetimos inconscientemente experiências emocionais antigas, mesmo quando elas nos fazem sofrer.

Não porque gostamos da dor.

Mas porque tentamos, sem perceber, mudar o final de uma história que começou muito antes.

Ana continuava procurando homens indisponíveis porque, inconscientemente, ainda tentava conquistar o amor que nunca conseguiu receber do pai da forma como precisava.

Era como se cada relacionamento fosse uma nova tentativa de resolver uma antiga ferida.

A resistência

Nos meses seguintes aconteceu algo curioso.

Sempre que um relacionamento saudável começava a evoluir, Ana encontrava motivos para terminar.

Criticava pequenos defeitos.

Inventava desculpas.

Dizia estar “confusa”.

Na análise percebeu que, se alguém realmente a amasse, não teria mais a quem culpar por sua infelicidade.

Ser feliz também lhe causava medo.

A mudança

Após quase dois anos de análise, Ana iniciou um novo relacionamento.

Dessa vez tudo parecia… simples.

Sem jogos.

Sem desaparecimentos.

Sem ansiedade constante.

Ela estranhava o silêncio.

Estranhava não precisar implorar por atenção.

Em uma sessão comentou:

— “Achei que amor precisava doer.”

Depois sorriu.

— “Hoje descobri que paz também pode ser amor.”

O que a psicanálise nos ensina?

Nem toda repetição é uma coincidência.

Às vezes, escolhemos parceiros que despertam sentimentos familiares, ainda que dolorosos.

O inconsciente tende a buscar aquilo que conhece, não necessariamente aquilo que faz bem.

Por isso, algumas pessoas permanecem presas ao mesmo tipo de relacionamento durante anos, acreditando que apenas tiveram azar.

A análise não muda o passado.

Mas pode revelar por que insistimos em revivê-lo.

Reflexão final

Você já percebeu que seus relacionamentos seguem sempre o mesmo roteiro?

Talvez o problema não esteja apenas nas pessoas que você escolhe.

Talvez exista uma história antiga tentando ser contada novamente.

E enquanto ela permanecer inconsciente, o final tende a se repetir.