A Mãe Que Não Conseguia Dizer “Não”: Um Caso Fictício Sob a Perspectiva da Psicanálise

Este caso é fictício e foi criado com finalidade educativa, inspirado em situações frequentemente observadas na clínica psicanalítica. Qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.

“Eu faço tudo pelos meus filhos, mas sinto que estou desaparecendo.”

Juliana, 39 anos, mãe de duas crianças, chegou ao consultório completamente esgotada.

Trabalhava durante o dia, cuidava da casa, organizava a rotina da família e tentava estar presente em todos os momentos da vida dos filhos.

Mesmo assim, carregava a sensação de nunca fazer o suficiente.

Logo na primeira sessão, disse:

— “Eu não sei mais quem eu sou. Minha vida gira em torno deles.”

Quando os filhos pediam um brinquedo, ela comprava.

Quando recusavam a comida, preparava outra.

Quando insistiam em dormir na cama dos pais, ela permitia.

Quando faziam birra, ela cedia.

Dizer “não” parecia impossível.

O peso de um simples “não”

À primeira vista, Juliana acreditava que apenas evitava o sofrimento dos filhos.

Mas, ao longo das sessões, percebeu que havia algo maior.

Sempre que tentava impor um limite, seu corpo reagia.

O coração acelerava.

Sentia ansiedade.

Uma culpa intensa surgia quase imediatamente.

Então desistia do limite.

Era mais fácil ceder.

Quando perguntada sobre o que imaginava que aconteceria se mantivesse o “não”, respondeu:

— “Tenho medo de vê-los sofrer.”

Após alguns segundos de silêncio, completou:

— “Tenho medo de que eles pensem que eu não os amo.”

A promessa silenciosa

Meses depois, Juliana lembrou de uma cena da infância.

Tinha apenas oito anos.

Queria participar de um passeio da escola.

Sua mãe respondeu apenas:

— “Não temos dinheiro.”

Nenhum abraço.

Nenhuma explicação.

Nenhum acolhimento.

Naquela noite, chorando sozinha, fez uma promessa que jamais contou a ninguém:

“Quando eu tiver filhos, eles nunca vão sofrer como eu sofri.”

Era uma promessa feita por uma criança.

Mas quem continuava tentando cumpri-la era a mulher adulta.

Quando proteger se transforma em excesso

Sem perceber, Juliana tentava eliminar qualquer frustração da vida dos filhos.

No entanto, algo inesperado começou a acontecer.

As crianças tornavam-se cada vez mais intolerantes aos limites.

Qualquer negativa provocava crises.

Choro.

Gritos.

Raiva.

Quanto mais elas reagiam, mais Juliana acreditava que precisava ceder.

O ciclo parecia não ter fim.

O sonho

Após alguns meses de análise, Juliana contou um sonho.

Ela caminhava segurando as mãos dos dois filhos.

De repente, cada um começava a correr para um lado diferente.

Ela tentava acompanhar ambos ao mesmo tempo.

Sentia seus braços sendo puxados.

Seu corpo começava a se partir ao meio.

Antes de cair, acordava assustada.

O que esse sonho revelava?

Na psicanálise, não existem significados universais para os sonhos.

Cada sonho está ligado à história única de quem sonha.

No caso de Juliana, o sonho parecia revelar um conflito profundo.

Na tentativa de atender todos os desejos dos filhos, ela estava deixando de existir como sujeito.

Já não havia espaço para suas próprias necessidades.

Seu desejo desaparecia para que apenas o desejo das crianças permanecesse.

A frase que mudou a análise

Em uma sessão, Juliana afirmou com convicção:

— “Boa mãe não faz o filho sofrer.”

O analista permaneceu em silêncio.

Depois perguntou calmamente:

— “Existe alguém que cresça sem experimentar frustrações?”

A pergunta permaneceu ecoando durante dias.

Foi então que Juliana começou a perceber que havia confundido amor com ausência de sofrimento.

O primeiro limite

Algumas semanas depois, surgiu uma situação comum.

O filho queria um videogame novo.

Ela respondeu:

— “Agora não.”

Esperou a explosão.

Ela veio.

Houve choro.

Reclamações.

Portas batidas.

Durante alguns minutos, Juliana sentiu uma angústia enorme.

Seu impulso era voltar atrás.

Comprar o videogame.

Acabar com aquele sofrimento.

Mas respirou fundo e sustentou sua decisão.

No dia seguinte, tudo parecia normal.

O filho tomou café, foi para a escola e, antes de sair, deu um beijo na mãe.

Naquele instante, Juliana percebeu que o amor não havia desaparecido por causa de um limite.

Quem mais sofrera naquele episódio havia sido ela.

O que a psicanálise nos ensina?

Na perspectiva psicanalítica, impor limites não significa rejeitar uma criança.

Ao contrário.

Os limites ajudam a criança a compreender que viver em sociedade envolve esperar, dividir, lidar com frustrações e reconhecer que nem todos os desejos podem ser atendidos imediatamente.

Isso faz parte do amadurecimento emocional.

Ao mesmo tempo, a análise mostra que muitos pais não sofrem apenas por causa da reação dos filhos.

Eles também entram em contato com experiências antigas da própria infância.

Por isso, educar um filho frequentemente desperta partes da história emocional dos próprios pais.

Reflexão final

Muitos acreditam que o mais difícil é dizer “não”.

Mas, para alguns pais, o verdadeiro desafio começa depois.

Começa quando a criança chora.

O choro infantil é um poderoso sinal de necessidade. Em alguns adultos, ele desperta uma angústia tão intensa que parece impossível permanecer firme.

Não é apenas o som que incomoda.

É o que esse som desperta.

Para alguns, o choro faz renascer sentimentos antigos de culpa, impotência, rejeição ou abandono. Sem perceber, o adulto tenta fazer aquele sofrimento desaparecer imediatamente, não apenas para aliviar a criança, mas também para aliviar a própria dor.

É por isso que muitos pais cedem.

Não porque sejam fracos.

Nem porque amem demais.

Mas porque suportar o sofrimento momentâneo do filho também significa suportar aquilo que esse sofrimento desperta dentro de si.

A psicanálise nos convida a olhar além da cena.

A pergunta deixa de ser apenas: “Por que meu filho chora?”

E passa a ser:

“O que o choro do meu filho desperta em mim?”

Responder a essa pergunta pode transformar a maneira como educamos.

Porque amar um filho não significa impedir toda frustração.

Significa permanecer presente, acolher suas emoções e compreender que um limite dado com firmeza, respeito e afeto não rompe o vínculo.

Pelo contrário.

Ajuda a criança a descobrir que ela pode suportar a frustração, confiar no amor dos pais e crescer emocionalmente mais preparada para enfrentar a vida.