Ela sabia que aquele relacionamento fazia mal, mas não conseguia ir embora

Um estudo de caso sobre dependência emocional, medo de abandono, repetição e desejo

Claudia sabia que precisava terminar.

Essa era talvez a parte mais difícil de entender.

Ela sabia.

Não era uma mulher que não percebia o que acontecia.

Sabia que aquele relacionamento a fazia sofrer. Sabia que passava noites esperando uma mensagem. Sabia que justificava comportamentos que, se acontecessem com uma amiga, provavelmente recomendaria que ela se afastasse.

Sabia que havia se afastado de pessoas importantes.

Sabia que já não fazia coisas de que gostava.

Sabia que passava boa parte do dia pensando nele.

E sabia, principalmente, que havia momentos em que se perguntava:

“Por que eu ainda estou aqui?”

Mas, quando imaginava realmente terminar, uma angústia quase insuportável aparecia.

O telefone na mão.

A conversa ensaiada.

A frase pronta.

“Eu não quero mais continuar.”

Ela imaginava dizendo.

Depois imaginava a resposta dele.

Talvez ele aceitasse.

Talvez fosse embora.

Talvez encontrasse outra pessoa.

E era justamente nesse ponto que Claudia desmoronava.

Porque o que mais a assustava não era apenas perder o relacionamento.

Era imaginar-se sem ele.

Então apagava a mensagem.

Voltava atrás.

Perdoava.

Esperava.

E tudo começava novamente.

“Eu sei que ele não me faz bem”

Quando chegou para conversar, Claudia não começou falando sobre amor.

Começou falando sobre culpa.

— Eu sei que deveria terminar.

Depois fez uma pausa.

— Mas eu não consigo.

A frase apareceu várias vezes.

“Eu sei.”

“Eu entendo.”

“Eu percebo.”

“Eu sei que não é saudável.”

Claudia sabia intelectualmente o que estava acontecendo.

Mas saber não era suficiente para produzir uma mudança.

Essa diferença é importante.

Porque existe uma distância entre saber alguma coisa sobre si e elaborar aquilo que nos mantém presos a determinada posição psíquica.

Ela não precisava que alguém lhe explicasse que aquele relacionamento estava lhe fazendo mal.

Ela já sabia.

O que precisava ser escutado era outra pergunta:

o que a fazia permanecer?

Essa pergunta era muito mais difícil.

O homem que nunca estava completamente disponível

No início, o relacionamento havia sido intenso.

Ele parecia completamente apaixonado.

Mandava mensagens o tempo inteiro.

Queria vê-la.

Fazia planos.

Dizia que nunca havia conhecido alguém como ela.

Claudia sentiu-se escolhida.

E talvez tenha sido exatamente essa sensação que tornou tudo tão poderoso.

Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que alguém a queria de maneira absoluta.

Mas a intensidade não durou.

Depois de alguns meses, ele começou a se afastar.

Não desaparecia completamente.

Esse detalhe era importante.

Ele permanecia suficientemente próximo para manter o vínculo vivo.

Mas suficientemente distante para fazê-la procurá-lo.

Uma mensagem sem resposta.

Um encontro cancelado.

Um final de semana em que ele dizia estar ocupado.

Depois, quando Claudia começava a se afastar, ele reaparecia.

“Estou com saudade.”

“Você sabe que eu gosto de você.”

“Não quero te perder.”

E Claudia voltava.

O ciclo recomeçava.

A aproximação trazia alívio.

O afastamento provocava angústia.

A angústia aumentava a busca.

A busca provocava novo afastamento.

E o afastamento fazia o desejo crescer ainda mais.

Quanto mais difícil, mais importante parecia

Claudia começou a perceber algo que a incomodava.

Quando ele estava próximo, ela conseguia respirar.

Quando ele se afastava, pensava nele o tempo inteiro.

E, curiosamente, quando ele voltava, depois de um período de distância, a sensação era quase de euforia.

Era como se tivesse recuperado alguma coisa que estava prestes a perder.

Ela dizia:

— Quando ele volta, parece que tudo fica bem.

Mas depois acrescentava:

— E aí eu tenho medo de ele ir embora de novo.

O relacionamento havia se tornado uma alternância entre alívio e ameaça.

E talvez por isso ela tivesse cada vez mais dificuldade de deixá-lo.

Não era apenas o homem que a prendia.

Havia também a expectativa da próxima aproximação.

A promessa de que, talvez, desta vez fosse diferente.

“Dessa vez ele vai mudar”

Essa era uma das frases que Claudia mais repetia.

— Ele vai mudar.

Quando perguntavam por que acreditava nisso, ela apresentava pequenos acontecimentos como provas.

Ele havia pedido desculpas.

Dissera que estava passando por uma fase difícil.

Prometera que iria melhorar.

Havia sido carinhoso durante alguns dias.

Tinha feito um plano para os dois.

Claudia agarrava-se a esses momentos.

Não porque fosse incapaz de perceber a realidade.

Mas porque precisava preservar uma possibilidade.

A possibilidade de que aquilo que desejava finalmente acontecesse.

Talvez a esperança fosse tão importante quanto o relacionamento.

Porque terminar significaria não apenas perder o homem.

Significaria também abandonar a fantasia de que, um dia, ele finalmente se tornaria aquele que ela esperava.

O que exatamente Claudia amava?

Essa pergunta começou a incomodá-la.

— Você ama quem ele é ou quem ele poderia ser?

Claudia ficou em silêncio.

A pergunta parecia injusta.

— Mas ele também tem um lado muito bom.

E começou a descrevê-lo.

O homem carinhoso.

O homem divertido.

O homem que aparecia quando ela precisava.

O homem que dizia que ela era especial.

Ela não estava inventando essas características.

Elas existiam.

Mas havia outra coisa.

Ela passava grande parte do tempo tentando recuperar aquele homem.

O homem do início.

O homem dos momentos de intensidade.

O homem que aparecia justamente quando ela estava prestes a desistir.

Talvez houvesse uma diferença entre amar alguém e permanecer esperando que esse alguém se transforme naquele que desejamos.

E essa diferença seria importante para compreender o caso.

A pergunta psicanalítica

Uma leitura superficial poderia dizer:

“Claudia tem medo de ficar sozinha.”

Talvez.

Mas a psicanálise precisa ir além.

Por que a solidão é tão ameaçadora para ela?

O que significa ser abandonada?

O que ela imagina que perderia ao perder esse homem?

Por que homens emocionalmente disponíveis não despertam nela o mesmo desejo?

O que há nesse movimento de aproximação e afastamento que parece mantê-la tão ligada?

Essas perguntas não produzem respostas imediatas.

E é justamente por isso que são psicanalíticas.

O objetivo não é encaixar Claudia em uma explicação pronta.

É investigar o sentido singular daquele vínculo em sua história.

O primeiro abandono

Durante uma conversa sobre sua infância, Claudia lembrou de uma situação que havia esquecido durante anos.

O pai trabalhava muito.

Quando chegava em casa, algumas vezes estava presente fisicamente, mas emocionalmente distante.

Claudia esperava por sua atenção.

Às vezes sentava perto dele.

Tentava conversar.

Fazia perguntas.

Mas ele parecia cansado.

Ela se lembrava de ficar esperando.

Esperando que ele terminasse o que estava fazendo.

Esperando que olhasse para ela.

Esperando que perguntasse como havia sido seu dia.

Depois, quando ele finalmente lhe dava atenção, Claudia sentia uma felicidade enorme.

Não havia necessariamente uma história de abandono explícito.

Não havia uma frase simples que explicasse tudo.

Havia algo mais sutil.

A experiência de desejar a presença de alguém que nem sempre estava disponível.

A questão não seria afirmar:

“Foi isso que causou seus relacionamentos.”

Seria simplista demais.

A questão seria perceber que aquela experiência poderia ter adquirido um lugar em sua fantasia e em sua maneira de se relacionar com o desejo do outro.

O amor como espera

Claudia percebeu algo desconfortável:

ela conhecia muito bem a posição de esperar.

Esperar uma mensagem.

Esperar uma ligação.

Esperar que ele voltasse.

Esperar que ele mudasse.

Esperar que ele finalmente percebesse.

Esperar que ele escolhesse.

Era como se o amor tivesse se organizado em torno de uma pergunta:

“Quando ele finalmente vai me escolher completamente?”

Essa pergunta parecia acompanhá-la.

E talvez o problema não fosse apenas o homem.

Talvez houvesse algo na própria estrutura daquele desejo.

Freud e a repetição

É aqui que o conceito freudiano de compulsão à repetição pode ajudar a pensar o caso.

Freud percebeu que o sujeito pode repetir experiências e posições que lhe causam sofrimento, mesmo quando conscientemente deseja algo diferente.

A repetição não significa simplesmente que a pessoa “gosta de sofrer”.

É muito mais complexa.

Algo não elaborado pode continuar sendo reencenado.

Claudia dizia querer um relacionamento seguro.

Mas encontrava-se novamente em uma relação marcada pela espera.

Dizia querer alguém presente.

Mas sentia-se especialmente mobilizada por alguém que se afastava.

Dizia querer tranquilidade.

Mas experimentava o desejo de maneira mais intensa justamente quando havia risco de perda.

A pergunta psicanalítica, então, não seria:

“Por que ela escolhe homens ruins?”

Seria:

“O que se repete na maneira como ela escolhe e deseja?”

Essa mudança de pergunta é fundamental.

O paradoxo do desejo

Uma das questões mais fascinantes do caso estava justamente aí.

Quando o homem estava disponível, Claudia nem sempre sentia a mesma intensidade.

Quando ele se afastava, o desejo aumentava.

Quando ela tinha certeza de que o perderia, queria desesperadamente recuperá-lo.

Isso não significa que Claudia não o amasse.

Significa que o desejo humano não funciona como uma simples necessidade que desaparece quando o objeto é obtido.

A psicanálise permite pensar o desejo em sua relação com a falta.

É justamente porque algo não está completamente disponível que ele pode adquirir determinado valor para o sujeito.

Em uma leitura lacaniana, poderíamos perguntar:

o que Claudia deseja quando deseja esse homem?

Ela deseja o homem?

Deseja ser escolhida por ele?

Deseja finalmente ocupar o lugar daquela que é escolhida?

Deseja reparar uma experiência antiga?

Deseja provar a si mesma que é suficientemente importante para que alguém permaneça?

Talvez não exista apenas uma resposta.

“Se ele me escolher, significa que eu sou suficiente”

Em determinado momento, Claudia disse algo que mudou a direção da conversa:

— Eu acho que, se ele realmente escolher ficar comigo, vou sentir que finalmente sou suficiente.

A frase ficou no ar.

Talvez ali estivesse algo mais profundo do que o medo de perder um namorado.

Talvez o relacionamento estivesse sustentando uma questão narcísica.

O olhar do outro havia adquirido uma importância enorme.

Ser desejada por aquele homem significava sentir-se valiosa.

Ser rejeitada significava sentir-se insuficiente.

A relação começava, então, a funcionar como uma espécie de espelho.

Quando ele a queria, ela existia de uma determinada maneira.

Quando ele se afastava, sua própria imagem parecia desmoronar.

O outro como garantia

Claudia havia começado a organizar a própria vida em torno daquele relacionamento.

Escolhia lugares pensando nele.

Planejava viagens pensando nele.

Recusava convites porque talvez ele aparecesse.

Esperava mensagens.

Interpretava mudanças no tom de voz.

Observava horários.

Tentava descobrir o que significava cada silêncio.

Sua vida psíquica estava cada vez mais ocupada pelo outro.

A literatura contemporânea sobre dependência emocional descreve justamente padrões em que a necessidade de aprovação, o medo do abandono, a dificuldade de autonomia e a autoanulação passam a ocupar espaço significativo na relação.

Mas, para a psicanálise, isso ainda não seria suficiente.

Seria necessário perguntar:

que lugar esse outro ocupa para Claudia?

Porque não basta dizer que ela “depende dele”.

Precisamos investigar do que, exatamente, ela depende.

Da presença?

Da aprovação?

Do amor?

Da fantasia de ser escolhida?

Da possibilidade de finalmente reparar uma falta?

Do sentimento de ser desejada?

É nesse ponto que a análise deixa de ser uma lista de sintomas e começa a investigar o sujeito.

A fantasia de que desta vez será diferente

Claudia não permanecia apenas porque acreditava que ele mudaria.

Havia algo mais profundo.

Ela acreditava que, se conseguisse fazer tudo certo, ele finalmente permaneceria.

Então começou a observar cada comportamento.

“Será que falei demais?”

“Será que cobrei demais?”

“Será que deveria ter esperado?”

“Será que fui carente?”

“Será que ele se afastou porque eu fiz alguma coisa?”

Ela começou a responsabilizar-se pelo desejo dele.

Se ele estava próximo, havia feito algo certo.

Se ele se afastava, havia feito algo errado.

A relação transformava-se em uma espécie de prova permanente.

E Claudia estava sempre tentando encontrar a resposta correta.

A demanda de amor

Aqui aparece uma questão que pode ser aproximada da teoria lacaniana.

A demanda de amor não é simplesmente uma solicitação objetiva.

Quando alguém pergunta:

“Você ainda me ama?”

pode não estar buscando apenas uma informação.

Pode estar pedindo uma confirmação de seu lugar para o outro.

Claudia perguntava:

— Você gosta mesmo de mim?

— Você ainda quer ficar comigo?

— Você está pensando em outra pessoa?

— Você vai me deixar?

Ela precisava ouvir.

Mas a resposta nunca parecia suficiente.

Ele dizia que a amava.

Por algum tempo, ela se acalmava.

Depois surgia uma nova dúvida.

Isso revela algo importante:

talvez nenhuma resposta concreta conseguisse preencher completamente aquilo que estava sendo demandado.

Porque a questão não era apenas obter uma informação.

Era buscar uma garantia impossível:

a garantia de que nunca seria abandonada.

O medo de perder e a dificuldade de desejar

Claudia começou a perceber que seu medo de perder o outro ocupava tanto espaço que quase não conseguia perguntar:

“Eu realmente quero estar nessa relação?”

Essa pergunta é diferente de:

“Ele ainda me quer?”

Durante muito tempo, ela havia perguntado apenas a segunda.

Seu desejo estava submetido ao desejo dele.

Se ele queria, ela queria.

Se ele se afastava, ela queria mais.

Se ele voltava, sentia alívio.

Pouco a pouco, percebeu que havia deixado de perguntar o que ela própria desejava.

O relacionamento que fazia sofrer, mas também oferecia algo

Esse ponto precisa ser tratado com cuidado.

Dizer que uma pessoa permanece em uma relação dolorosa porque “gosta de sofrer” é uma simplificação cruel.

Um vínculo pode produzir sofrimento e, simultaneamente, oferecer satisfação psíquica.

Pode oferecer pertencimento.

Pode oferecer intensidade.

Pode alimentar uma fantasia.

Pode proteger contra uma angústia ainda maior.

Pode manter vivo um ideal.

Pode permitir que o sujeito continue buscando algo que considera fundamental.

No caso de Claudia, talvez aquele relacionamento oferecesse a possibilidade permanente de ser escolhida.

Enquanto ele não a escolhesse completamente, a história permanecia aberta.

E enquanto permanecesse aberta, a esperança continuava viva.

Terminar significaria fechar a porta.

E talvez fosse isso que ela não suportava.

O que aconteceria se ela fosse embora?

Essa pergunta foi feita de maneira direta.

— Se você tivesse certeza absoluta de que ele nunca mudaria, o que faria?

Claudia chorou.

— Eu iria embora.

Depois ficou em silêncio.

— Mas eu não consigo aceitar que ele nunca vai mudar.

Talvez essa fosse a chave.

Ela não estava presa apenas ao homem real.

Estava presa também à possibilidade.

Àquilo que poderia acontecer.

Ao futuro imaginado.

Ao homem que poderia aparecer.

Ao relacionamento que poderia existir.

À promessa de que, algum dia, a falta seria preenchida.

A elaboração começa quando a fantasia pode ser escutada

O objetivo de uma escuta psicanalítica não seria simplesmente dizer:

“Você precisa terminar.”

Nem:

“Você precisa se valorizar.”

Essas frases podem até parecer corretas, mas não alcançam necessariamente o conflito inconsciente.

Claudia já sabia que precisava tomar uma decisão.

O que precisava compreender era:

por que perder aquele homem parecia significar perder uma parte de si mesma?

Essa pergunta permitiria investigar sua história, suas relações anteriores, suas fantasias, suas escolhas amorosas e os lugares que costumava ocupar diante daqueles que desejava.

A análise não daria uma resposta pronta.

Ela precisaria construir sua própria resposta.

Quando ela percebeu que não queria apenas aquele homem

Depois de algum tempo, Claudia conseguiu dizer:

— Acho que eu não quero apenas que ele fique. Eu quero sentir que alguém pode escolher ficar comigo.

Essa frase era diferente.

Ela começava a separar o homem daquilo que ele representava.

Talvez o que estivesse em jogo não fosse somente aquele relacionamento.

Havia uma demanda muito mais antiga:

ser escolhida.

Ser importante.

Ser suficiente.

Ser aquela que o outro não abandona.

A questão agora poderia ser investigada de outra maneira:

por que ser escolhida pelo outro se tornou tão importante para que ela pudesse sentir seu próprio valor?

A diferença entre amar e precisar que o outro permaneça

Amar alguém não significa não suportar sua ausência.

Amar não elimina a falta.

Nem transforma o outro em garantia permanente de nossa existência.

No caso de Claudia, a dificuldade parecia surgir quando o outro deixava de ser apenas um parceiro e passava a ocupar uma função muito maior.

Ele precisava confirmar seu valor.

Precisava diminuir sua angústia.

Precisava garantir que ela não seria abandonada.

Precisava permanecer para que ela pudesse sentir-se segura.

O problema não estava simplesmente em amar muito.

Estava naquilo que havia sido colocado sobre o outro.

A pergunta que mudou tudo

Certa vez, Claudia ouviu uma pergunta:

— Se você soubesse que seria amada mesmo que ele fosse embora, você ainda escolheria permanecer nessa relação?

Ela não respondeu.

Pela primeira vez, não tentou defender o relacionamento.

Não falou das qualidades dele.

Não falou das promessas.

Não falou do medo.

Apenas ficou em silêncio.

Depois disse:

— Eu não sei.

E talvez esse “eu não sei” fosse mais importante do que qualquer resposta rápida.

Porque, pela primeira vez, a pergunta não era:

“Como faço para ele não me abandonar?”

Era:

“Eu quero estar aqui?”

A diferença parecia pequena.

Mas não era.

Uma leitura psicanalítica do caso

O caso de Claudia permite pensar a chamada dependência emocional para além de uma lista de comportamentos.

O termo é utilizado atualmente para descrever padrões de sofrimento afetivo marcados, entre outros aspectos, por medo de abandono, necessidade intensa de aprovação, dificuldade de autonomia e permanência em vínculos desequilibrados. Estudos recentes discutem esses fenômenos em relações conjugais e amorosas.

Mas a psicanálise acrescenta outra pergunta:

qual é a função desse vínculo na economia psíquica do sujeito?

Em Claudia, podemos levantar algumas hipóteses.

A repetição

A relação parece reeditar uma posição já conhecida: desejar alguém cuja presença não é inteiramente garantida.

A repetição não deve ser entendida como escolha consciente do sofrimento, mas como possibilidade de reencenação de algo que permanece sem elaboração.

A falta

O desejo não se reduz à obtenção de um objeto.

A relação de Claudia com o parceiro parece fortemente atravessada pela falta: é justamente aquilo que ela não possui completamente que mantém sua expectativa e intensifica sua busca.

A demanda de amor

Claudia busca garantias constantes de que é amada e escolhida.

Mas nenhuma garantia consegue eliminar definitivamente sua dúvida.

Isso sugere que a questão ultrapassa a informação concreta sobre o amor do parceiro.

O narcisismo

A presença ou ausência do outro passa a interferir profundamente na imagem que Claudia possui de si mesma.

Ser desejada significa sentir-se valiosa.

Ser rejeitada significa sentir-se insuficiente.

O parceiro passa a ocupar uma posição importante na sustentação de seu sentimento de valor.

A ambivalência

Claudia sabe que sofre.

Deseja ir embora.

Mas também deseja permanecer.

Ama e sente raiva.

Quer proximidade e, ao mesmo tempo, deseja libertar-se.

Essa contradição não é um erro da personagem.

É parte da complexidade do conflito psíquico.

A compulsão à repetição

O sujeito pode repetir posições que conscientemente gostaria de abandonar.

Por isso, não basta perguntar:

“Por que ela não termina?”

É necessário perguntar:

“O que ela reencontra nessa relação?”

Essa talvez seja a pergunta mais psicanalítica de todo o caso.

E se o problema não fosse apenas o homem?

Claudia demorou para perceber.

Durante muito tempo, acreditou que a solução seria ele mudar.

Depois acreditou que a solução seria ela conseguir deixá-lo.

Mas havia uma terceira possibilidade.

Compreender por que aquele vínculo tinha adquirido tamanho poder sobre ela.

Porque, se ela simplesmente saísse sem elaborar aquilo que a mantinha presa, poderia encontrar outro relacionamento em que a mesma lógica reaparecesse.

Talvez com outro homem.

Outro nome.

Outra história.

Mas a mesma posição.

O sujeito pode mudar de objeto sem necessariamente mudar sua relação com o desejo.

É por isso que a psicanálise não se limita a aconselhar escolhas melhores.

Ela procura escutar por que determinadas escolhas se repetem.

O que Claudia precisava perder para conseguir partir?

Talvez essa seja a pergunta mais profunda.

Ela não precisava perder apenas um homem.

Precisava perder uma fantasia.

A fantasia de que, se aquele homem finalmente a escolhesse, alguma coisa dentro dela seria reparada.

Precisava abrir mão da promessa de que o outro poderia oferecer uma garantia contra a falta.

Precisava suportar que não existe relacionamento capaz de eliminar completamente a angústia da perda.

Precisava descobrir que ser amada não significa possuir uma garantia de que jamais será abandonada.

E, principalmente, precisava começar a construir uma relação diferente com o próprio desejo.

Quando o amor deixa de ser uma prova

Talvez amadurecer afetivamente não seja aprender a nunca mais sofrer por amor.

Nem tornar-se completamente independente.

Nem convencer-se de que não precisa de ninguém.

Talvez seja algo mais difícil:

poder amar sem transformar o outro em garantia de que somos suficientes.

Poder desejar sem precisar possuir.

Poder estar em uma relação sem desaparecer dentro dela.

Poder sentir medo de perder sem fazer do medo a única razão para permanecer.

Poder perguntar:

“Eu quero estar aqui?”

em vez de viver apenas perguntando:

“Ele ainda me quer?”

Claudia começou a perceber que essas duas perguntas pertenciam a lugares psíquicos completamente diferentes.

A primeira a colocava diante do próprio desejo.

A segunda a colocava inteiramente diante do desejo do outro.

A pergunta que permanece

Talvez a dependência emocional não comece no momento em que alguém percebe que não consegue ir embora.

Talvez ela comece muito antes.

Quando o amor passa a ser confundido com garantia.

Quando ser escolhida se torna prova de valor.

Quando a ausência do outro parece significar ausência de si.

Quando a espera se torna familiar.

Quando o sofrimento passa a ser interpretado como intensidade.

Quando a esperança de que o outro finalmente mude se torna mais poderosa do que aquilo que ele efetivamente oferece.

Claudia acreditava estar presa àquele homem.

Mas, pouco a pouco, começou a perceber que talvez estivesse presa também a uma pergunta:

“O que preciso fazer para finalmente ser escolhida por alguém que poderia ir embora?”

E talvez essa seja uma das perguntas mais dolorosas que a psicanálise pode ajudar um sujeito a escutar.

Porque, às vezes, não é o outro que precisamos convencer a ficar.

É a nós mesmos que precisamos finalmente perguntar:

“Se ninguém precisasse me escolher para que eu me sentisse inteira, quem eu escolheria?”

Nota de estudo

Este estudo de caso é construído a partir de uma situação fictícia e utiliza a chamada dependência emocional como ponto de partida para uma leitura psicanalítica.

É importante fazer uma distinção: “dependência emocional” é uma expressão amplamente utilizada na psicologia contemporânea e na linguagem cotidiana, mas não corresponde, por si só, a um diagnóstico ou conceito único da teoria freudiana. A psicanálise permite investigar os fenômenos descritos por meio de conceitos como repetição, compulsão à repetição, ambivalência, conflito psíquico, narcisismo, demanda, desejo, falta e escolha de objeto.

O caso não deve ser utilizado para diagnosticar uma pessoa real. Na clínica, comportamentos semelhantes podem adquirir sentidos completamente diferentes conforme a história e a singularidade de cada sujeito.

A literatura científica recente também ressalta que fenômenos associados à dependência emocional podem envolver medo de abandono, necessidade de aprovação, dificuldade de autonomia, autoanulação e permanência em relações que produzem sofrimento.

Referências para aprofundamento

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.

SANTOS, Thayne de Oliveira; CAMARGO, Murilo Reis. Dependência emocional em relacionamentos conjugais: possíveis fatores e consequências. Psicologia USP, v. 35, e220002, 2024.

Aviso ao leitor

Este estudo de caso é fictício, elaborado exclusivamente para fins educativos e de reflexão sobre a psicanálise. Os personagens, acontecimentos e situações apresentados foram criados para ilustrar conceitos e possibilidades de leitura psicanalítica e não correspondem a pacientes ou atendimentos reais.

Qualquer semelhança com pessoas, histórias ou situações existentes é mera coincidência.

Sandra Calaça
Psicanalista